
As entrevistas estão de volta ao Seis25. Depois de Cátia Lírio e Samuel Lóio, André Martins é o senhor que se segue. O jovem treinador do Queluz explica como vê o basquetebol, as suas preocupações em relação ao futuro da modalidade, o trabalho que tem desenvolvido com os jovens do Queluz e algumas das suas ambições pessoais. O seu trabalho tem sido elogiado e é apontado várias vezes como um treinador de grande qualidade, cujas equipas apresentam um estilo de jogo mais alegre e intenso do que a grande maioria das equipas em Portugal.
Como começou a sua carreira de treinador, e o que o motivou a seguir esse caminho?
Durante a minha formação enquanto jogador, joguei um ano no Ateneu Comercial de Lisboa e depois 12 anos nos escalões de formação do Benfica. Pelos vários escalões por onde passei fui sempre capitão de equipa e gostava de liderar grupos. Foi daí que veio esse gosto por liderar equipas, e quando entrei para a Faculdade surgiu a oportunidade e optei por seguir a carreira de treinador.
Comanda equipas com grande coesão defensiva, muito agressivas e que, normalmente, imprimem muita velocidade e grande intensidade ao jogo. Concorda que essa começa a ser a “imagem de marca” das suas equipas?
Não sei se há imagens de marca…pela minha forma de ver o jogo é na defesa que tudo começa. As equipas que não defendem não podem atingir objectivos. E em termos ofensivos, fazemos um pouco aquilo que as outras equipas nos deixam fazer. Nós procuramos jogar rápido de forma agressiva, mas se a outra equipa nos obrigar a jogar a meio-campo é isso que procuramos fazer com sucesso. É desta forma que entendo o jogo.
Como é a sua relação com jogadores mais velhos? São os primeiros a respeitá-lo ou já teve algum problema?
Na minha opinião, o que é fundamental para um treinador é que ele dê o exemplo. Ou seja, eu cometo os meus erros, e tenho as minhas limitações como qualquer outro treinador, mas há uma coisa que eu procuro fazer sempre que é dar o meu melhor e os jogadores são justos quando percebem que do outro lado está uma pessoa que dá o seu melhor e que respeita os jogadores. Por isso nunca tive problemas desse género.
Esta equipa do Queluz tem muitos jovens (Tiago Pinto, Rui Araújo, Cristóvão Cordeiro, Diogo Moisão e Gil Cruz). É “politica do treinador”, ou politica do clube e a prova de que o Queluz tem vindo a realizar um bom trabalho na formação?
Foi um conjunto de factores que levou a esta situação. Tivemos de dar um passo atrás, e a aposta para este ano é realmente essa: a aposta em jogadores portugueses. Temos um misto de jogadores constituído por dois norte-americanos jovens, alguns jogadores nacionais ainda jovens e que podem atingir patamares mais altos em Portugal e depois jogadores da formação que estão na equipa sénior com a perspectiva de que no futuro, e até já no presente como é o caso do Tiago Pinto, possam dar a sua perspectiva à equipa sénior porque os clubes necessitam muito de referencias para trazer mais gente aos pavilhões. Isso é fundamental.
Acha que, para estes jovens, o facto de o Queluz estar agora a Proliga é benéfico para que desenvolvam as suas capacidades, já que poderão ter mais minutos de jogo do que se estivessem na Liga?
O mais importante nem é tanto a competição, importante é que eles tenham o seu espaço. Muitas vezes diz-se “tem que se apostar nos jovens e eles têm que jogar”. Não, eles jogam se merecerem e se mostrarem que têm qualidade, não é por serem jovens ou por serem da formação do Queluz.
Na minha opinião, aquilo que dificulta mais a evolução de um jogador Júnior para Sénior é que nessa fase de transição, muitas vezes, é quando os jogadores trabalham menos. E o que procuro fazer com estes jogadores é que eles trabalhem muito nesta fase. Eles treinam todos os dias com a equipa Sénior, algumas vezes treinam com a equipa Júnior, vão aos jogos dos Seniores, vão aos jogos da CNB2 e vão aos jogos de Juniores A. Chegam ao final de um ano de trabalho com muitos jogos, muitos treinos, muita experiência acumulada e, na minha opinião, isso é a única maneira de desenvolver os jovens jogadores portugueses.

Já se jogou metade do campeonato da Proliga. Qual a sua opinião sobre a qualidade desta competição e dos seus participantes? Considera que está melhor do que quando esteve como treinador na Física?
Penso que o campeonato está mais equilibrado. Há mais equipas com argumentos que podem discutir as coisas. Inevitavelmente o Benfica e o Queluz vieram trazer um valor acrescentado a esta competição e as próprias equipas reforçaram-se mais tendo em conta isso mesmo. E sim, penso que a qualidade claramente subiu esta época.
O ano passado treinava uma equipa profissional de basquetebol. Este ano, com a sua equipa numa competição diferente continua a ser treinador profissional de basquetebol?
Não, não…Nem o ano passado era profissional. Era exactamente como este ano! Treinamos de manhã, treinamos à tarde, os treinadores estão lá sempre em todos os treinos – tenho essa possibilidade porque a outra actividade profissional assim o permite. Tenho o sonho de um dia ser 100% profissional mas para isso é preciso haver condições. Esse é o caminho que se deve seguir, mas tem de se trabalhar para oferecer às pessoas condições para seguir esse profissionalismo. Não podemos exigir que os treinadores e jogadores sejam profissionais se depois não têm contrapartidas desse profissionalismo. Assim é um falso profissionalismo.
Tenho a ambição de fazer, profissionalmente, aquilo que mais gosto que é ser treinador de basket, mas é preciso criar condições para isso. Não basta dizer que querem que as pessoas sejam profissionais. Assim que as condições estiverem criadas, eu assumo esse profissionalismo a 100%.
Qual a sua opinião sobre este “ano turbulento” do basquetebol português: participação histórica no Eurobasket 2007, e as divergências entre a FPB e a LCB.
Vejo com preocupação porque a Federação e a Selecção, treinadores e jogadores fizeram um trabalho notável, extraordinário. Aquilo que se conseguiu fazer no Europeu excedeu todas as expectativas e o basket português não conseguiu aproveitar isso para se projectar para outro patamar mais elevado e isso preocupa-me.
Acha que estas divergências entre FPB – LCB, ou entre as pessoas que as dirigem, poderão pôr em risco o futuro da modalidade? É evidente a projecção que outras modalidades conseguiram ganhar, nomeadamente o rugby que ganhou imensa visibilidade e novos praticantes…
Que as coisas não estão bem, toda a gente sabe. Que as coisas têm que melhorar, também toda a gente tem consciência. Agora, na minha opinião, o que penso que as pessoas responsáveis têm de procurar é um modelo de desenvolvimento para o basquetebol que faça crescer a modalidade. Essa é que tem de ser a primeira preocupação. As pessoas deviam perguntar-se “Porque é que temos quase sempre os pavilhões vazios?”, “Porque é que o jogador português não se assume ao mais alto nível, salvo raras excepções?”. Se formos a ver, não vemos quase nenhum jogador de 20 anos a jogar na principal competição portuguesa. Os jogadores continuam a ser o Marçal, o Seixas, o José Costa, etc. Porque é que não aparecem jogadores novos todas os anos? São este tipo de interrogações que deviam ser feitos para se começar a pensar num modelo que sirva os interesses do basket em Portugal.
Parece-me que esta época que devia estar a ser de transição não está a ser aproveitada para desenvolver esse modelo de desenvolvimento para a modalidade.
Treinos bi-diários, outra actividade profissional. Como ocupa tempos livres? Tudo dedicado ao basket?
Não, não…Tive um filho à dois meses e meio e os tempos têm sido ocupados com ele. Mas como qualquer outra pessoa, obviamente que tenho outras actividades. É como aquela célebre frase “Quem é só médico, nem médico chega a ser”. Um treinador tem de ter outras ocupações, até porque isso acaba por ser importante para o seu processo formativo e para o ajudar na sua carreira de treinador. Como qualquer outra pessoa gosto de ir ao cinema, gosto de praia, de viajar, de passear e conviver com amigos.
Por fim, gostaria de deixar alguma mensagem a outros treinadores jovens que estejam a começar?
Aquilo que um treinador uma vez me disse foi que a partir do momento que os jovens sentem que têm essa vocação e que gostam dessa actividade, a persistência, o querer aprender todos os dias, e a vontade de ser melhor de dia para dia vão fazer dele um bom treinador. Ou pelo menos irá ter as bases para isso.