Voltam as entrevistas ao Seis25, desta vez com Fernando Sá, actual treinador da equipa do Vitória M. Couto Alves. Em dois anos ao serviço do Vitória M. Couto Alves, Fernando Sá conquistou um Campeonato Nacional e uma Taça de Portugal, e mais recentemente levou a formação vimaranense à sua segunda final consecutiva da Proliga. A sua liderança forte, e o espírito colectivo, solidário e combativo que consegue transmitir para os seus jogadores têm dado resultados evidentes. Nesta entrevista destaca a importância da Defesa para o sucesso colectivo, e ainda a Paixão pelo Basquetebol – algo bastante presente nas equipas que orienta.

Falemos da época que recentemente terminou: O Vitória era uma equipa muito unida dentro de campo, agressiva, que defendia muito bem. Tinha Tommie Eddie, um dos melhores estrangeiros a actuar em Portugal (senão o melhor). Tem percentagens de tiro exterior bastante razoáveis. Joga sem quebrar o ritmo com 7 jogadores. Qual é para si a imagem de marca do Vitória que construiu nestes dois últimos anos?
A imagem de marca desta equipa, é acima de tudo a paixão que demonstra por aquilo que faz, neste caso a prática de Basquetebol, com uma vontade de vencer enorme e consequentemente em melhorar, em termos individuais, o que se reflecte obviamente no colectivo.
A defesa press 3×2 a meio campo (com Tommie Eddie à frente) que o Vitória tem utilizado em alguns jogos nos últimos minutos (com excelentes resultados por exemplo contra o Física na Taça ou em Ilhavo para o campeonato) é inspirada na defesa press do Benfica nos seus tempos áureos?
Esta é uma defesa que usamos em circunstâncias muito especiais, não só, como pode parecer ,para recuperar resultados, mas também para uma mudança de atitude dos meus jogadores. Não é inspirada no Benfica, é simplesmente a defesa que optei usar na minha equipa, por se adequar melhor às características dos meus jogadores.
Na nossa opinião, e na opinião de muitos seguidores de basquetebol, o Vitória é a equipa que melhor defende na Proliga. A importância que atribui à defesa, e a solidez que a sua equipa apresenta são reflexo do excelente defensor que era quando jogava?
Poderá ser sim. No meu ponto de vista a defesa é o parâmetro que menos se desenvolve no Basquetebol do nosso país, e é através dela que se vencem títulos e ao contrário do que muita gente pensa que mudar a atitude dos jogadores relativamente a este aspecto é praticamente impossível, eu não concordo, se lhe dermos a mesma importância que aos outros aspectos os resultados aparecem, agora é verdade que dá muito trabalho.
Que importância atribui ao tempo em que esteve a treinar na formação? Sente-se um treinador de seniores ou acha que um dia se sentirá tentado a voltar a treinar outros escalões?
Foi uma decisão que tomei na minha formação como treinador e de que em nada estou arrependido. Na verdade sinto que a minha formação como treinador não acabou, nem vai acabar nunca, porque quanto mais leio, ouço ou observo mais dúvidas me surgem, aumentando a minha responsabilidade de formação contínua como treinador, no entanto voltar à formação neste momento não faz parte dos meus planos.
Como avalia o trabalho de formação que se faz em Portugal?
Não sou provavelmente a pessoa mais indicada para avaliar o trabalho dos outros e muito menos da formação visto que já não sou treinador destes escalões à algum tempo acredito que se não fazem melhor é porque muitas vezes não lhes são criadas as condições necessárias, no entanto olhando para as nossas provas e observamos que quem continua a fazer a diferença são jogadores de gerações passadas, ex: Nuno Marçal no FCP, Pedro Nuno no Vagos, José Costa no CAB, etc…
Enquanto treinador sénior quais considera serem as principais lacunas dos jogadores nacionais? Perguntando de outra forma, quais considera que deviam ser os aspectos técnicos e tácticos a que os treinadores da formação deveriam dar mais atenção?
A defesa sem dúvida! Temos jogadores muito desenvolvidos tecnicamente, mas sem noções defensivas. Como já referi defender não é só atitude tem muita técnica e muitas noções teóricas para se transmitirem aos nossos jogadores.

Considera a Proliga um bom espaço para o jovem jogador português desenvolver as suas capacidades?
Todo o espaço é bom quando temos paixão por aquilo que fazemos, não é na competição que isso se trabalha. Acima de tudo temos que saber transmitir esse sentimento aos jogadores para que eles não desistam nunca. Os nossos jogadores têm alguma culpa pelo que estão a passar, passam muito a reclamar por oportunidades sem fazerem nada por merecerem. Temos primeiro que dar e provar, para depois recebermos.
O Fernando está muito ligado ao Sporting Clube Vasco da Gama, um clube histórico da modalidade em Portugal, com uma massa adepta muito característica, inserido numa rede social diferente das demais e onde foi treinador e jogador. O que é para si «jogar à Vasco» e «ser do Vasco»?
Ser Vascaíno é algo que eu sei o que é e felizmente já muita gente também o sabe. Muitas das coisas que referi anteriormente, foi neste clube que aprendi, a vontade de vencer, a paixão pela modalidade, o sacrificarmo-nos em prol da equipa, a felicidade que sentimos por precisarmos uns dos outros e para além disso e mais importante, é um sítio que sabemos que vamos sempre encontrar lá AMIGOS, seja em que altura ou com que frequência for.
Muitas vezes referiu em entrevistas que não abdicou da sua carreira de professor porque em Portugal não é sustentável viver apenas do Basquetebol. Gostaria de um dia poder viver apenas do seu trabalho como treinador?
Sim, gostaria de um dia fazer só aquilo que mais gosto de fazer, mas infelizmente o desporto nacional não nos dá estabilidade nenhuma.
Recentemente quando o comparavam com Mourinho referiu que não tinha nada a ver, mas que «ambos compreendiam que para “ganhar” os jogadores, o respeito tinha de ser reconhecido e não imposto». No seu entender, quais são as características necessárias para se conseguir liderar uma equipa?
Principalmente o respeito, a honestidade, justiça e obviamente o trabalho sério e rentável. Tento transmitir aos jogadores constantemente, a necessidade de continuamente traçarem novos objectivos individuais para que a sua evolução seja continua e permanente. A nossa aprendizagem nunca está completa.
Qual a(s) sua(s) referência(s) como treinador de Basquetebol?
Prof. Jorge Araújo.
Que conselhos gostaria de deixar aos jovens que se estão a iniciar na carreira de treinador de basquetebol?
Que não tenham pressa, que criem para eles mesmos novos desafios e sempre que sentirem que quanto mais se formam, mais dúvidas tem, estão no bom caminho.
Da Linha Dos Seis 25:
Esquerda ou Direita? Esquerda
Michael Jordan ou Magic Johnson? Michael Jordan
Tripas ou Francesinha? As duas e ao mesmo tempo se possível
No Banco ou dentro de campo? Dentro do campo
Profissionalismo ou Semi-profissionalismo? Profissionalismo