
Elena Delle Donne tinha tudo para ser a grande próxima estrela do basquetebol feminino. Elena Delle Donne tinha a técnica individual, a coordenação, o lançamento, a ética de trabalho, a vontade de melhorar o seu jogo dia após dia. A versatilidade que o seu jogo assumia – a capacidade de jogar perto do cesto, ou atrás da linha de 3 pontos – originava comparações com Candace Paker. Diziam que Delle Donne podia ser ainda melhor!
Aos 7 anos de idade os pais contrataram um treinador para se dedicar exclusivamente a Elena Delle Donne, para que a, ainda criança, pudesse melhorar o seu jogo, para que pudesse tornar-se na melhor jogadora de basquetebol dos Estados Unidos. Para que pudesse tornar-se na melhor jogadora de basquetebol do Mundo. Com essa idade, Elena fazia parte de uma equipa de rapazes. Isto seria um dado normal…se os rapazes não tivessem 11 anos de idade! Tornou-se obcecada pelo treino, e a única coisa que parecia superar a sua apetência para o jogo, era a sua capacidade de superação e de dedicação ao treino – levantava-se às 6 da manhã para correr, e mais tarde fazia trabalho de força, levantando pesos.
Mas a especialização precoce costuma andar de mão dada com sérios riscos no desenvolvimento pessoal e social de qualquer criança. E em Elena Delle Donne, os efeitos dessa especialização precoce começaram a fazer-se sentir quando a talentosa jogadora tinha apenas 13 anos de idade!! Cansada de se comportar como uma jogadora profissional sem que daí recebesse contrapartidas financeiras, cansada de ver o jogo como uma obrigação e não como um prazer, Elena começou a perder o encanto pelo basquetebol. Começou a ver que as suas colegas de equipa se divertiam mais a jogar do que ela. Pensava que elas só podiam estar a fingir porque o basquetebol não era assim tão divertido e deleitante como as suas colegas transmitiam. Mas Elena Delle Donne continuava a ser a estrela da sua equipa, e não queria deixar ficar mal as suas amigas, as suas colegas. Por isso continuou a jogar, e a ganhar campeonatos, e a criar ilusões. Tentava recuperar o gosto pelo jogo, tentava voltar a gostar de algo que muito provavelmente iria ser a sua vida, o seu sustento. Elena tentava forçar a felicidade através do basquetebol, mas isso já há muito que se tinha perdido no caminho.
Tal como a jogadora que tinha como ídolo, Diana Taurasi, também Delle Donne escolheu a Universidade de Connecticut para continuar a sua carreira de jogadora. Pensava-se que ia seguir as pegadas de Taurasi, pensava-se que ia ter uma carreira de sucesso na prestigiada Universidade de Connecticut e que daí seguiria viagem para a WNBA onde seria uma das principais imagens da competição. Pensava-se que também ela seria campeã na NCAA, e depois na WNBA. Pensava-se…
A carreira de Elena Delle Donne na Universidade de Connecticut demorou 48 horas.

A jogadora reconheceu que não sentia a paixão e a vontade necessária para jogar basquetebol ao mais alto nível. Dizia que não estava preparada e que não iria continuar a fingir que gostava do jogo. Esta decisão chocou toda uma nação apaixonada pelo basquetebol, mas principalmente os pais de Elena, bem como o seu treinador das Connecticut Huskies, Geno Auriema. Auriema não conseguiu compreender a decisão de Delle Donne, e deu-lhe algum tempo para ela definir as suas prioridades e a sua vida. A decisão de abandonar o basquetebol manteve-se, e a jogadora disse que não estava à espera que ninguém conseguisse compreender a sua decisão. Só ela sabia o que estava a passar. Só ela sabia que não conseguia nem queria continuar.
Elena Delle Done abandonou o basquetebol para tentar recuperar a alegria que lhe faltava na sua vida. Encontrou-a no voleibol. Mudou de Universidade, mudou de desporto. Agora, estuda na Universidade de Delaware a 20 minutos de sua casa, joga volley na equipa universitária, os seus jogos têm menos de 500 pessoas nas bancadas (em contraste com as mais de 10.000 que teria se continuasse a jogar pela UConn), não tem a ESPN ou outras cadeias televisivas a segui-la. Agora, Elena Delle Done é feliz!

Além disso, por estar mais perto de casa, Elena pode conviver mais com uma das pessoas que mais e melhor a tem influenciado ao longo dos seus 19 anos de vida – a irmã Elizabeth, de 24 anos, que nasceu surda, muda e que tem parelesia cerebral.
Um regresso ao basquetebol não está posto de parte, e mesmo a Universidade de Connecticut receberia de volta o imenso talento desta ex-jogadora de basquetebol. Mas para já Delle Done mantém-se afastada do jogo, e nem na televisão tem visto jogos, a não ser aqueles em que participam amigos seus. De resto, a bola castanha tem-se mantido longe das suas mãos e a única pressão que o seu pai diz que vai exercer será durante a Final Four da NCAA, na qual será quase certo que estará a equipa em que Elena Delle Donne poderia estar a jogar, as Connecticut Huskies. Se as Huskies ganharem e Elena não sentir qualquer ponta de tristeza por não estar a celebrar com o treinador Geno Auriema, o seu pai saberá que a filha fez a escolha certa.
Realmente, é uma pena quando pessoas não conseguem ou não aproveitam o talento que têm para certas actividades. Mas, ninguém pode ser julgado ou acusado por não querer fazer a actividade para a qual tem um talento acima da média. A procura da felicidade pessoal, o bem-estar de cada um deverá ser sempre o principal objectivo e a principal recompensa. Se não se gosta do que se faz, algo não está bem, algo deve ser alterado. Elena Delle Donne teve a coragem de o fazer, pondo uma vez mais a nu, todos os problemas inerentes à especialização precoce e à ‘profissionalização’ do desporto juvenil e infantil.