
O que queres ser quando fores grande? A grande maioria responde: “jogador!”, alguns poderão dizer, “treinador!”, mas algum dirá “árbitro!”? Sendo o juiz do jogo, e aquele que decide o que é correcto do que é incorrecto, o legal do ilegal, é evidente que o árbitro é um elemento indispensável ao jogo no sentido de garantir que tudo decorre consoante a normalidade e que nenhuma equipa é beneficiada por utilizar um tipo de jogo em que o não cumprimento das regras é constante.
Talvez por aqui se perceba o porquê de tantos treinadores passarem grande parte do tempo de jogo preocupados em comunicar com o árbitro em vez de estarem concentrados no que a sua equipa ou no que o adversário está a fazer. Talvez por aqui se perceba a importância que adeptos, treinadores e jogadores atribuem aos árbitros, nomeadamente para explicar as derrotas ou insucessos momentâneos: é mais fácil encontrar resposta nos outros do que nas nossas falhas.
Mas, como deve um treinador comportar-se perante o desempenho negativo dos árbitros?
A situação mais comum, infelizmente, é o recurso à ‘peixeirada’ e a espectáculos teatrais (deprimentes). Mas por ser a mais comum não quer dizer que seja a mais correcta, muito pelo contrário. E torna-se especialmente incorrecta e inadequada quando se trata de jogos de escalões de formação (sobretudo Sub14 e Sub16), normalmente dirigidos por árbitros com menor experiência e menor capacidade de encaixe para passar 37 minutos de tempo útil de jogo a ‘levar nas orelhas’ de um treinador efusivo – já para não falar dos mimos que vêm da bancada. Se nos queixamos de que poucos são os praticantes de basquetebol em Portugal, o panorama ao nível da arbitragem é ainda mais preocupante! Assim, se não queremos afastar jogadores da ‘nossa modalidade’, também deveríamos ter alguma preocupação em não afastar os poucos que têm a coragem ou gosto pela arbitragem. Se a função dos treinadores é ensinar, então porque não dar também uma pequena ajuda aos jovens árbitros e ensinar-lhes quando erram em vez de, simplesmente, berrar ou pressionar?

Mas quando se trata de basquetebol de competição o cenário muda, uma vez que os jogos são dirigidos por árbitros experientes, capazes de lidar com as bocas dos restantes intervenientes, e que, em princípio, não se deixarão afectar pela agressividade dos treinadores. Posto isto, será que resulta o recurso à ‘peixeirada’ e aos protestos mais agressivos no sentido de melhorar a qualidade da arbitragem? Será que os árbitros experientes se deixam influenciar pelos berros dos treinadores? Ou isso só prejudicará ainda mais a qualidade da arbitragem?

Claro que cada treinador tem a sua postura e a sua maneira de ser, e pode sempre refugiar-se na desculpa “Se acharem que estou a ser incorrecto, marquem técnica”. E realmente, se cada treinador pode cometer duas faltas técnicas por jogo, porque não utilizá-las como fazem os jogadores de campo em relação às suas cinco faltas pessoais? Afinal de contas…se as faltas existem são para serem dadas, ou não? No entanto, acredito que esta atitude apenas conduzirá a que no futuro os árbitros entrem para o jogo preparados para a actuação desses treinadores, e talvez aí os níveis de tolerância dos árbitros sejam cada vez menores, e as tais faltas técnicas surjam cada vez mais cedo…