Quando chega o Verão e acabam os campeonatos nacionais e regionais, a grande maioria dos jogadores entra de férias. Uns descansam, outros aproveitam para participar em campos especializados e melhorar alguns aspectos do seu jogo, outros afastam-se um pouco do basket para entrar na nova época de ‘cabeça limpa’, outros ainda passam horas no pavilhão ou no playground a treinar sozinhos nos seus fundamentos técnicos, ou a participar em jogos de 2×2, 3×3, 4×4 ou 5×5 – o que houver! No entanto, há sempre um restrito grupo de jogadores que durante o Verão participam em estágios, concentrações e representam Portugal defrontando as selecções integradas na Divisão B dos diversos escalões de competição.
É nesta altura que as diferenças para o resto da Europa melhor se percebem. É nesta altura que se pode perceber se em Portugal estamos a trabalhar bem ou mal, melhor ou pior, se nos estamos a afastar do resto da Europa, ou se estamos a subir lugares e a tornar-mo-nos melhor neste desporto que tanto gostamos.
E tem sido evidente a tendência de à medida que os anos avançam e que os jogadores se vão aproximando do escalão de seniores, a distância para os restantes países aumenta, e em alguns casos somos mesmo ultrapassados pelos nossos adversários na progressão individual e colectiva. Nas próximas linhas tentaremos mostrar a nossa opinião sobre este assunto.
Então, quais as razões que ajudaram a criar esta tendência?
Começamos por onde tudo começa na carreira e na época de cada jogador: o treino! Precisamos de aumentar a intensidade, qualidade e dedicação com que treinamos. No treino, os objectivos devem passar por eliminar sempre as nossas lacunas – melhorar a nossa capacidade técnica todos os dias! Ir para o pavilhão mais cedo e trabalhar os arranques em drible, mudanças de direcção em drible, mecânica de lançamento, e diversos tipos de passe! Os treinadores não podem fazer os seus jogadores crescer em centímetros, mas podem torná-los mais rápidos e explosivos! Depois de apreendidos e aprendidos os gestos técnicos, temos de exigir que os jogadores os executem na máxima velocidade, não ficando satisfeitos com o mediano e com o ganhar jogos do campeonato regional ou nacional!
E no jogo? Conseguimos que as nossas equipas joguem a um ritmo elevado, sempre com grande intensidade defensiva e com constante agressividade ofensiva? Se não utilizamos mais do que 6 atletas por jogo, ou se continuamos a deixar no banco, durante todo o jogo, metade dos jogadores à nossa disposição não podemos imprimir constante velocidade e intensidade no nosso jogo! Temos de ter jogadores preparados – não 5, não 6, não 7! Mas sim 10, 11 ou 12 jogadores! Praticamente em todos os Clinics e Acções de Formação a que tenho assistido esta ideia tem sido regularmente defendida, como a ideal para melhorarmos as nossas prestações dentro e fora de portas. Em quase todas estas acções de aprendizagem muitos são os treinadores que abanam a cabeça e que dizem que sim, que são boas ideias. Quantos têm a capacidade de as utilizar nas suas equipas?
Quantos dos melhores jogadores portugueses do escalão de Sub18 têm minutos de utilização nas equipas seniores dos seus clubes? Quantos dos melhores jogadores portugueses do escalão de Sub20 têm minutos de utilização nas equipas seniores dos seus clubes? São poucas as equipas onde os jovens da formação consigam ter alguns minutos ou alguma contribuição! Vários são os jogadores com qualidade no escalão de Sub18 e Sub20, sem qualquer espaço para crescer nas equipas seniores dos seus clubes. Se não jogarem não desenvolvem, não melhoram! E acredito que pela qualidade que demonstram, se alguns dos nossos melhores jogadores jovens tivessem lugar no plantel sénior dos seus clubes, fariam por merecer algumas oportunidades para entrar em campo e jogar. Certamente não teriam papel de destaque, mas teriam oportunidade de melhorar, de competir contra atletas mais evoluídos, que lhes iriam criar diferentes dificuldades, levando os jovens a perceber as suas limitações e o que teriam de melhorar para poderem merecer maior confiança do seu treinador, e consequentemente merecerem mais minutos! Há clubes que são verdadeiros cemitérios para alguns jovens jogadores! Apostam no recrutamento e prospecção de jovens talentos, mas raramente conseguem apostar nos jovens que formam.
Na sequência do parágrafo anterior, vem o problema que se põe por alguns destes jogadores com mais capacidade competirem em campeonatos onde brilham, e onde a oposição que enfrentam não se apresenta como um desafio para a melhoria das suas capacidades individuais. Por vezes este problema surge da ambição e dos objectivos dos clubes em que actuam – na ânsia de ganhar campeonatos, os directores preferem ter os melhores atletas a jogar no escalão a que pertencem, esquecendo-se que se os jogadores melhorarem, o clube fica a ganhar no médio-longo prazo. Além disso, se os melhores jogadores de cada escalão estiverem a competir no escalão etário seguinte, ou se estiverem a integrar o plantel sénior, abrem-se espaços e oportunidades para que os jogadores que ficam nesse escalão também melhorem já que terão de assumir maiores responsabilidades e maior destaque. Mais uma vez, o clube e os jogadores ficariam a ganhar! Se calhar não em taças, mas sim na qualidade dos seus atletas.
Esta é uma situação bastante complicada de se alterar, e com muitas variáveis a terem de se controlar e transformar para se caminhar na direcção certa e para que a competitividade e qualidade dos nossos jogadores não estanque.